Incentivo à Atividade Física dos Colaboradores: o Risco que a Empresa Também Assume

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Gráfico de crescimento populacional por faixa etária no Brasil, ilustrando o envelhecimento da força de trabalho e o impacto na produtividade empresarial
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Em 26 de julho de 2026, aos 50 anos, Júlio Barreto cruzou a linha de chegada da meia-maratona da 10ª edição da SP City Marathon. Era corredor experiente, tinha pelo menos cinco maratonas completas no currículo e mantinha os exames de rotina em dia. Minutos depois de comemorar com a família, sentiu náusea, dor no ombro direito e calafrios. Teve uma parada cardíaca da qual não se recuperou, mesmo com atendimento médico imediato no local (fonte: Lance). O caso reacende uma pergunta que a maioria das empresas com programa de incentivo à atividade física dos colaboradores prefere não fazer: o time sabe, com dado, se o corpo de cada colaborador aguenta o esforço que está sendo pedido dele? Este artigo mostra onde mora esse risco e por que a resposta não é desincentivar o movimento.

O paradoxo real: a atividade física protege muito mais do que arrisca

Comece pelo que a ciência não deixa em aberto. A Organização Mundial da Saúde estima que até 5 milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas se a população mundial cumprisse entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, a recomendação vale para adultos de qualquer idade, inclusive quem já convive com doença crônica (OPAS/OMS, 2020). Sedentarismo mata mais gente, silenciosamente, do que qualquer prova de rua.

E o risco de morte em corrida, quando comparado ao volume de gente que corre, é raro. Um estudo publicado na JAMA em 2025 acompanhou 29,3 milhões de finalizadores de maratona e meia-maratona nos Estados Unidos entre 2010 e 2023: foram 176 paradas cardíacas, 0,6 a cada 100 mil corredores, das quais 59 foram fatais, uma morte a cada 497 mil pessoas que cruzaram a linha de chegada (JAMA, 2025). A letalidade, aliás, caiu de 48% (2010-2014) para 25% (2015-2023), principalmente porque o acesso a desfibrilador em prova melhorou. O risco também não é uniforme: é maior em homens (1,12 por 100 mil) do que em mulheres (0,19 por 100 mil), e maior em maratona completa do que em meia-maratona.

Onde a estatística geral perde a mão é na faixa etária. A Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício, da Sociedade Brasileira de Cardiologia em conjunto com a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, é direta: a exigência cardiovascular do esforço físico intenso, e o risco de eventos como morte súbita, aumenta de forma perceptível a partir dos 35 anos, mais ainda quando existe algum fator de risco associado, como hipertensão, colesterol alto ou histórico familiar (SBC/SBMEE). Júlio tinha 50 anos e era, por todos os relatos públicos, um atleta cuidadoso. Isso não invalida a estatística, reforça que rotina de treino, por si só, não é avaliação clínica.

O que fica dessa primeira camada é simples de enunciar e difícil de operacionalizar: o exercício continua sendo, disparado, a decisão mais protetora. O risco não está no movimento. Está em pedir esforço de um corpo que ninguém, formalmente, avaliou para aquele esforço específico.

Por que o incentivo corporativo pode estar incompleto

É cada vez mais comum a empresa patrocinar inscrição em corrida de rua, montar equipe para maratona corporativa ou subsidiar plano de academia como parte do pacote de bem-estar. Isso não é o problema. O problema é o vazio que costuma ficar em volta do incentivo: a empresa paga a inscrição, monta a camiseta do time, comemora a foto de grupo na largada e raramente pergunta se aquele colaborador específico fez avaliação cardiológica recente antes de se inscrever para 21 km.

Vale uma comparação de fora do universo de RH. No automobilismo, nenhum piloto amador entra numa pista de track day sem passar por um exame médico obrigatório antes, não porque dirigir seja perigoso em si, mas porque o esforço físico e o estresse cardiovascular de uma volta rápida são reais, mensuráveis, e a organização do evento não quer descobrir o limite do corpo de alguém em tempo real. A lógica é simples de importar: quando a empresa organiza o esforço, ela também assume parte da responsabilidade por saber se aquele corpo está pronto para ele.

Aqui cabe uma ressalva importante, e ela limita o quanto a empresa pode realmente agir: a companhia não pode exigir laudo médico do colaborador nem acessar diretamente seu histórico clínico, isso esbarra em sigilo médico e LGPD, e nenhum programa de bem-estar deveria tentar contornar esse limite. O que a empresa pode fazer é diferente: comunicar com clareza a importância da avaliação prévia, facilitar o acesso a ela (via convênio, parceria ou reembolso) e tratar isso como parte real do convite à corrida, não como aviso legal de rodapé que ninguém lê. Já tratamos desse gap de prevenção em Check-ups nas Empresas: Investir na Saúde é Investir nos Resultados: o check-up preventivo funciona melhor como rotina estruturada do que como benefício avulso que o colaborador usa (ou não) por conta própria.

Fica a pergunta que a próxima seção tenta responder: por que tantas empresas assumem que essa avaliação já está coberta por alguma obrigação legal que elas cumprem de qualquer forma?

O que o PCMSO cobre e o que ele não cobre

Muita empresa parte do pressuposto de que já tem essa lacuna resolvida, porque mantém em dia o PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional), exigido pela NR-7. É importante ser preciso aqui, porque é fácil esticar o que essa norma realmente garante.

O PCMSO estrutura cinco tipos de exame admissional, periódico, retorno ao trabalho, mudança de função e demissional, com periodicidade que considera idade: trabalhadores sem exposição a agente nocivo fazem exame periódico a cada dois anos até os 45 anos, e anualmente a partir daí (SOC, sobre a NR-7). Isso é fato regulatório, não interpretação.

O que a norma não faz é avaliar, de forma específica, se aquele colaborador está apto para correr 21 km ou completar uma maratona. O PCMSO foi desenhado para monitorar risco ocupacional, a exposição a agente físico, químico, biológico, ergonômico do trabalho, não para funcionar como triagem cardiológica pré-esportiva. Tratar o PCMSO como se ele já cobrisse esse ponto é o tipo de suposição confortável que mantém a lacuna invisível: a empresa acha que está coberta, e não está, especificamente para esse cenário.

É por isso, aliás, que vale separar bem duas coisas que a corporação às vezes confunde: cumprir a obrigação legal de saúde ocupacional é uma frente; estruturar promoção de saúde, cultura de cuidado e prevenção voltada a comportamento e produtividade é outra, bem diferente, e é nela que entra o Programa de Promoção de Saúde, que olha o dado de saúde do time de forma integrada, não como checklist de compliance.

O que fazer amanhã, não daqui a um ano

Não é preciso esperar a próxima corrida patrocinada pela empresa para agir. Três movimentos são realistas para começar essa semana.

Primeiro, audite se existe algum vínculo hoje entre iniciativas de incentivo a esforço físico — corrida, maratona corporativa, competição interna — e comunicação clara sobre avaliação prévia. Na maioria das empresas, esse vínculo simplesmente não existe.

Segundo, mude onde essa mensagem aparece. Se a avaliação médica prévia só existe no termo de responsabilidade que ninguém lê antes de assinar, ela não está cumprindo função nenhuma. Colocar isso no convite, na comunicação interna, na conversa com o RH muda o comportamento; letra miúda não muda.

Terceiro, trate esse cruzamento entre saúde e incentivo a atividade física como projeto contínuo, com indicador e responsável, não como campanha pontual de bem-estar que aparece uma vez por ano perto da maratona da empresa. Isso, como abordamos em O Custo Invisível do Presenteísmo nas Empresas, é o mesmo princípio que separa programa de saúde que funciona de programa de saúde que só existe no relatório de RH.

Nenhuma dessas três ações garante que um evento como o de Júlio Barreto nunca mais aconteça. Nenhum programa garante isso e nem deveria prometer. O que elas fazem é reduzir a distância entre incentivar o movimento e cuidar de quem se move, que é, no fim, a única coisa que está sob controle da empresa.

Conclusão

O caso da SP City Marathon não é sobre os riscos da corrida, a atividade física continua sendo, de longe, mais protetora do que arriscada, e nenhum dado deste artigo sustenta o contrário. É sobre uma lacuna específica e corrigível: empresas que incentivam esforço físico sem estruturar, de forma clara e contínua, o convite à avaliação prévia que deveria acompanhar esse incentivo. Essa lacuna não se fecha com um aviso legal nem se presume resolvida porque o PCMSO está em dia. Fecha-se com decisão deliberada e, como toda decisão sobre saúde de outra pessoa, com limite claro do que a empresa pode e não pode exigir.

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Promover saúde é uma estratégia de negócio, e isso inclui decidir, de forma deliberada, como sua empresa comunica a importância da avaliação prévia antes de incentivar esforço físico do time. Se sua empresa patrocina corrida, maratona corporativa ou qualquer iniciativa de atividade física e não tem clareza sobre esse ponto, agende a consultoria gratuita de 30 minutos com a NM e identifique esse gap antes de organizar a próxima ação.

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